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História dos Açores: Da Descoberta em 1427 à Autonomia Moderna

Descubra a fascinante história dos Açores: da descoberta por Diogo de Silves em 1427, passando pela colonização flamenga, a era dos cachalotes em Pico, até à autonomia conquistada em 1976. Um percurso por seis séculos de história atlântica.

Miguel Ferreira

Miguel Ferreira

16 March 2026

História dos Açores: Da Descoberta em 1427 à Autonomia Moderna

A história dos Açores é uma das mais fascinantes narrativas da expansão europeia no Atlântico. Situado no meio do oceano, a mais de 1 500 km da costa portuguesa, este arquipélago de nove ilhas viveu séculos de exploração, colonização, prosperidade agrícola, uma intensa era baleeira e uma longa luta pela autonomia que culminou em 1976. De Diogo de Silves à República Autónoma atual, cada ilha guarda memórias vivas de um passado extraordinário.

A Descoberta: Diogo de Silves e 1427

A data oficial da descoberta dos Açores é 1427. O navegador português Diogo de Silves é apontado como o primeiro europeu a avistar as ilhas de Santa Maria e São Miguel, com base na referência encontrada num portulano catalão elaborado pelo cartógrafo Gabriel de Vallseca de Maiorca em 1439 — o mais antigo documento cartográfico que menciona o arquipélago. Trata-se de uma das figuras mais obscuras da era dos Descobrimentos: apenas este registo cartográfico comprova a sua viagem, sem que haja crónicas, diários ou documentação adicional que confirme os detalhes da expedição.

A historiografia debate até hoje se Diogo de Silves precedeu ou foi precedido por outros navegadores. Alguns investigadores argumentam que Gonçalo Velho Cabral, enviado pelo Infante D. Henrique, chegou em 1431 como o primeiro a cartografar as ilhas de forma sistemática. Independentemente da questão da primazia, são estas as duas figuras centrais da descoberta. A designação "Açores" deriva de um equívoco ornitológico: os primeiros navegadores julgaram avistar açores (a ave de rapina Accipiter gentilis), quando na realidade eram milhafres. O nome ficou e persiste até hoje.

As duas últimas ilhas a ser descobertas — Flores e Corvo — foram avistadas por volta de 1452 pelo navegador Diogo de Teive e o seu filho João de Teive, completando assim o mapa do arquipélago tal como o conhecemos.

A Colonização: Séculos XV e XVI

A colonização dos Açores começou em 1439, por ordem do Infante D. Henrique, com os primeiros colonos a chegarem a Santa Maria. O processo de povoamento estendeu-se por várias décadas, com colonos oriundos principalmente do norte de Portugal continental — Minho, Trás-os-Montes e Alentejo — mas também de outras regiões europeias. A diversidade de origens foi, desde o início, uma característica marcante da sociedade açoriana.

Em torno de 1450, a Terceira foi integrada no processo colonizador através da concessão da sua capitania ao flamengo Jácome de Bruges, por ordem do Infante D. Henrique. Este detalhe explica a forte presença de colonos flamengos no arquipélago — particularmente nas ilhas do grupo central, como o Faial, que chegou a ser conhecida como a "Ilha Flamenca". A influência flamenga é ainda visível hoje na arquitetura, nos apelidos e nas tradições locais. Estima-se que entre os séculos XV e XVI chegaram aos Açores colonos flamengos em número suficiente para moldar de forma duradoura a identidade cultural de várias ilhas.

A economia inicial assentou na produção de trigo, exportado para o Norte de África e para as guarnições portuguesas no Mediterrâneo, bem como na criação de gado. Com o tempo, a cana-de-açúcar, o pastel (planta utilizada na tinturaria têxtil europeia) e mais tarde as laranjas — exportadas em larga escala para os mercados ingleses — tornaram-se os pilares da economia agrícola açoriana. A posição geográfica privilegiada do arquipélago, no centro do Atlântico Norte, transformou as ilhas num ponto de escala obrigatório para as frotas ibéricas que regressavam das Américas e da África.

Em 1493, Cristóvão Colombo fez escala em Santa Maria na sua viagem de regresso da América, celebrando uma missa de ação de graças na ermida de Nossa Senhora dos Anjos — um evento que sublinha o papel estratégico do arquipélago durante a Era dos Descobrimentos.

Angra do Heroísmo: Capital do Atlântico

No século XVI, a cidade de Angra, na Terceira, tornou-se um dos portos mais importantes do mundo. Todas as frotas de retorno das Índias e do Brasil paravam aqui para reparações, aprovisionamento e descanso. A cidade acumulou uma riqueza considerável, refletida na grandiosidade das suas igrejas, conventos e fortalezas — muitos dos quais se mantêm hoje como Património Mundial da UNESCO (classificação obtida em 1983).

A importância geopolítica da Terceira ficou ainda mais marcada durante a crise de sucessão de 1580, quando o rei espanhol Filipe II tentou anexar Portugal. A Terceira resistiu, tornando-se o último reduto do legitimismo português e chegando a servir temporariamente como capital de Portugal durante as hostilidades. Mais tarde, durante as Guerras Liberais (1828–1834), a ilha voltou a ter papel central: a vitória liberal na Batalha de Praia determinou a renomeação da localidade para Praia da Vitória e conferiu a Angra o título de "Heroísmo" — daí o nome atual da cidade.

A Era Baleeira: O Cachalote e Pico

A história da caça à baleia nos Açores é uma das mais singulares da indústria baleeira mundial. O contacto dos açorianos com a baleação industrial deu-se sobretudo através dos grandes baleeiros norte-americanos do século XIX, que recrutavam mão de obra local nas suas passagens pelo arquipélago. Muitos açorianos embarcaram nessas frotas, aprenderam as técnicas e regressaram às suas ilhas com o conhecimento necessário para desenvolver uma indústria baleeira própria.

A ilha do Pico tornou-se o epicentro desta atividade. Os cachalotes (Physeter macrocephalus) — as maiores baleias dentadas do mundo — eram abundantes nestas águas atlânticas. O sistema de caça açoriano era notavelmente artesanal: botes de madeira movidos a remos e a vela, arpões lançados à mão, e vigias em terra (os vigias) que acompanhavam os movimentos dos animais a partir de torres de pedra construídas nos pontos mais altos das costas. Este método contradizia radicalmente as práticas industriais de outros países, conferindo à baleação açoriana uma dimensão quase etnográfica.

No seu auge, a indústria baleeira empregava milhares de pessoas nos Açores, com o óleo de baleia (especialmente o espermacete, extraído da cabeça dos cachalotes) a ser exportado para iluminar cidades europeias e norte-americanas e a lubrificar maquinaria industrial. A aldeia de Lajes do Pico ficou conhecida como "a vila baleeira" por excelência.

O declínio começou com o surgimento do petróleo como combustível alternativo no final do século XIX e acelerou com a pressão conservacionista do século XX. Em 1982, a Comissão Baleeira Internacional (CBI) impôs uma moratória à caça comercial à baleia, à qual Portugal aderiu. A última fábrica de processamento nos Açores fechou em 1984 e os últimos cachalotes foram abatidos em 1987. A transformação subsequente foi notável: os antigos baleeiros reconverteram-se em guias de observação de baleias, e os Açores tornaram-se um dos melhores destinos mundiais de whale watching. O Museu dos Baleeiros em Lajes do Pico preserva esta memória com uma das coleções mais completas da história baleeira no Atlântico.

O Século XX: Guerra, Emigração e a Base das Lajes

O século XX trouxe mudanças profundas ao arquipélago. A emigração foi uma constante ao longo de toda a história dos Açores, mas intensificou-se no século XX com destino aos Estados Unidos (especialmente para a Nova Inglaterra e Bermuda), ao Canadá e ao Brasil. Calcula-se que hoje existam mais pessoas de ascendência açoriana fora do arquipélago do que na própria região.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a importância estratégica dos Açores foi reconhecida pelas principais potências aliadas. Em 1943, Portugal — mantendo formalmente a neutralidade — concedeu aos Aliados o direito de utilizar as instalações das ilhas, concretizado na Base Aérea das Lajes, na Terceira. Esta base foi fundamental para os voos transatlânticos militares e de abastecimento durante o conflito. Ainda hoje as Lajes continuam a ser utilizadas pela NATO e pelas Forças Armadas dos EUA, emblema do papel geopolítico que os Açores mantêm no Atlântico Norte.

A Revolução de 1974 e a Conquista da Autonomia

O 25 de Abril de 1974 — a Revolução dos Cravos — alterou radicalmente o destino político dos Açores. O fim do Estado Novo abriu o caminho para que o arquipélago, historicamente afastado do poder central em Lisboa, reivindicasse uma governação própria. O processo não foi pacífico: chegou a formar-se a Frente de Libertação dos Açores (FLA), um movimento que defendia a independência total do arquipélago, aproveitando o vazio de poder do período revolucionário.

No entanto, prevaleceu a via autonomista. A Constituição da República Portuguesa, aprovada a 2 de abril de 1976, consagrou a autonomia política e administrativa dos Açores. O Decreto-Lei n.º 318-B/76, de 30 de abril de 1976, formalizou o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores. As primeiras eleições para a Assembleia Legislativa Regional realizaram-se a 27 de junho de 1976 e, a 8 de setembro de 1976, João Bosco Soares da Mota Amaral tomou posse como primeiro Presidente do Governo Regional dos Açores — dando início oficial à autonomia constitucional do arquipélago.

A autonomia conferiu aos Açores poderes legislativos e executivos próprios em matérias como a economia, o ambiente, o ordenamento do território e a cultura regional, embora a política externa, a defesa e a soberania permaneçam na alçada da República. O modelo tem evoluído ao longo das décadas com sucessivas revisões estatutárias.

Os Açores no Século XXI

Na contemporaneidade, os Açores afirmam-se como uma das regiões europeias de maior crescimento turístico. A classificação como Destino Sustentável Líder do Mundo pelos World Travel Awards (distinção recebida consecutivamente desde 2015) e o reconhecimento internacional da qualidade ambiental do arquipélago atraem cada vez mais viajantes conscientes. O turismo cresceu de forma expressiva na última década, com o aeroporto de Ponta Delgada a registar recordes de passageiros.

A economia açoriana assenta hoje em três pilares: o turismo, a agropecuária (os Açores produzem cerca de 30% do leite consumido em Portugal continental) e os serviços. A herança histórica — do vulcanismo ao legado baleeiro, da arquitetura barroca de Angra aos trilhos de montanha — é um ativo central da oferta turística regional.

Do ponto de vista ambiental, o arquipélago tem investido fortemente nas energias renováveis: a ilha do Flores produz mais de 80% da sua energia a partir de fontes renováveis, e o objetivo regional é atingir a neutralidade carbónica até 2050.

Perguntas Frequentes sobre a História dos Açores

Quem descobriu os Açores e em que ano?

A descoberta oficial dos Açores data de 1427 e é atribuída ao navegador português Diogo de Silves, com base numa referência num portulano catalão de 1439. O navegador Gonçalo Velho Cabral é igualmente mencionado como explorador relevante, tendo chegado às ilhas em 1431 por ordem do Infante D. Henrique.

Quando foram os Açores colonizados?

A colonização começou em 1439, com os primeiros colonos a instalarem-se em Santa Maria. O processo de povoamento das nove ilhas estendeu-se ao longo do século XV e parte do XVI, com colonos vindos de Portugal continental, Flandres e outras regiões europeias.

Quando terminou a caça à baleia nos Açores?

A última fábrica de processamento de baleia nos Açores encerrou em 1984. Os últimos cachalotes foram abatidos em 1987, após a adesão de Portugal à moratória da Comissão Baleeira Internacional de 1982.

Quando obtiveram os Açores autonomia?

A autonomia política e administrativa foi consagrada pela Constituição de 1976, aprovada a 2 de abril de 1976. As primeiras eleições regionais realizaram-se a 27 de junho de 1976 e o primeiro governo tomou posse a 8 de setembro de 1976.

Qual é o papel histórico da Terceira no contexto português?

A Terceira foi duas vezes capital de Portugal: durante a crise de sucessão de 1580 e nas Guerras Liberais (1828–1834). A cidade de Angra do Heroísmo é Património Mundial da UNESCO desde 1983, reconhecida pela sua importância histórica na Era dos Descobrimentos e nas guerras liberais portuguesas.

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Miguel Ferreira

Escrito por

Miguel Ferreira

Biologia Marinha, Observação de Baleias, Turismo Sustentável

Biólogo marinho formado pela Universidade dos Açores, Miguel passou 10 anos a estudar cetáceos no Atlântico. Antigo guia de observação de baleias no Pico, hoje escreve sobre conservação marinha, biodiversidade e turismo sustentável. A sua paixão é partilhar o oceano com quem o visita.